domingo, dezembro 26, 2010

Nota Sobre a Existência de Deus

Hoje lendo o jornal O GLOBO, que geralmente nao me interessa muito, deparei-me com algo interessante:
"Em épocas antigas, a Igreja católica foi muito censurada por meter-se em assuntos de ciência. Casos como o de Galileu Galilei acabaram mostrando a total impropriedade dessa interferência.
Mas passou-se muito tempo até que a Igreja reconhecesse os seus erros, e reabilitasse Galileu.
Agora estamos vendo, curiosamente, o fenômeno inverso: cientistas que se pronunciam sobre assuntos de religião, e dizem que, de acordo com seus cálculos e medições, fica excluída a possibilidade da existência
de Deus.
Essa cruzada ao contrário talvez tenha um motivo empírico: a aparição, na nossa época, de correntes ditas
fundamentalistas que apresentam a religião sob o seu pior aspecto.
Assim se destruíram, em nome da religião, as torres gêmeas de Nova York, com a morte de milhares de inocentes. Como uma resposta torta a essa carnificina, tomou corpo, nos EUA do presidente Bush, uma forma de fundamentalismo cristão que fez mal à consciência americana, jogando o país de volta a épocas arcaicas.
Mas, na prática, os fundamentalistas acabam caindo no ridículo por suas próprias atitudes; enquanto declarações de cientistas são, ainda hoje, acolhidas com uma espécie de temor reverencial.
Seria bom, nesse caso, voltar a alguns princípios básicos. A verdade é que ciência e religião trabalham com
instrumentos diferentes, e, por isso mesmo, não deveriam entrar numa conversa de surdos.
A ciência, para obter resultados que dignificam a espécie humana, opera com dados exatos, medições e experiências. É difícil imaginar que assim se chegue perto de uma hipotética divindade.
A percepção do divino passa por outros caminhos. Um deles é o que já se chamou de “intuição intelectual”. É um tipo de visão que não depende do raciocínio discursivo.
Pense em certas manifestações da natureza — por exemplo, o mundo das flores. A mim, pessoalmente, emociona e deslumbra o verificar que, em cada flor, alguém ou alguma coisa estava em busca da perfeição.
Em todas elas, sem exceção, vê-se a procura do detalhe que, segundo Goethe, traía a presença do gênio. Nenhuma delas — muito menos a orquídea — dá a impressão de ser fruto do acaso, o resultado de uma série de adaptações. E o que você pode dizer de uma aplica-se a dezenas, a centenas, a milhares.
Nessa espantosa proliferação de beleza, não há algo a mais do que o acaso? Mas se, daí, você quiser extrair uma verdade científica, fracassará lamentavelmente. Porque o cientista quererá discutir flor a flor; a cada uma, aplicará métodos de raciocínio que se afastam de uma intuição generalizante.
Não, isso não é uma prova da existência de Deus. É só uma intuição. Mas por que ela seria menos válida
do que o raciocínio lógico? Imagine que você está num terrível problema de amor, e que, à sua direita, mora um cientista; à esquerda, uma pessoa em quem você se acostumou a admirar o bom-senso, a percepção psicológica. A qual dos dois você recorrerá, nesse apuro?
A divindade — em que eu acredito — jamais quis conformar-se ao raciocínio lógico. Desde que o mundo é mundo, podemos falar no que os entendidos chamam de “teofania” — a manifestação de uma força sobrenatural. Esses episódios, de que todas as culturas estão abundantemente providas, caracterizam-se por um absoluto desprezo das normas convencionais de comportamento. Cada um deles tem o seu tempo, seu lugar, sua peculiaridade; e os veículos humanos que eles atingem também mostram a mais completa diversidade.
Também é curioso que, muitas vezes, esses veículos revelem o que, em termos prosaicos, seria a mais completa inépcia. Eu penso numa camponesa como Bernadette, por exemplo, que, aos 14 anos, na França, teve uma série de visitações da Virgem Maria.
Semianalfabeta, ela era o oposto de uma intelectual. Mas tinha o sólido bom-senso que costumamos atribuir a certa gente do povo. Depois das aparições, ela foi submetida a toda sorte de interrogatórios. Jamais se conseguiu provar que ela delirava, ou inventava; e, na gruta de Lourdes onde a Virgem lhe apareceu, sucederam-se os milagres.
Também estes não servem para provar nada. Não é por aí que as coisas caminham. São apenas sinais na
estrada. O Cristo, aliás, levou ao pé da letra o propósito de não provar nada. Não fez milagres para convencer ninguém, nem para responder aos que o atacavam. Deixou-se levar, como um cordeiro, ao sacrifício; e o que aconteceu depois da sua morte também não foi um evento que repercutisse em praça pública. Soube quem tinha de ficar sabendo.
E assim é com todas as grandes tradições religiosas. Em todas elas, o fenômeno divino está envolto numa nuvem de mistério; no “The Cloud of Unknowing” que é o título de um famoso texto medieval. E, nesse caso, discussões como as que às vezes se propõe são, no mínimo, impertinentes.


LUIZ PAULO HORTA é jornalista."

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